Cryptonomicon

Logo que terminei de ler Cryptonomicon, do Neal Stephenson, fiquei protelando escrever algo sobre o livro, mas seria injusto não falar uma coisa ou outra sobre ele. Vamos ver o que ainda tenho na cabeça.

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O livro é um tijolo de papel que vale cada árvore. Novecentas e tantas páginas onde o escritor não tem a menor vergonha de meter um gráfico de sino (aquele da probabilidade) ou um pequeno script perl. Mais ainda, Stephenson coloca tudo de uma forma que em vez de achar difícil você se sente mais inteligente (+2 na Int enquanto o livro estiver aberto).

A história se desenvolve em duas épocas: a Segunda Guerra Mundial e o Tempo Presente (anos 90, na verdade). Alguns personagens dos tempos mordernos são descendentes ou versões mais velhas de personagens da época da guerra. Outros personagens são reais (ou representações romanceadas de pessoas reais), como Alan Turing e o General MacArthur, que era muito figura. O livro alterna a narrativa entre as duas épocas, o que me deixou o tempo todo pescando pistas de todas as formas que o passado poderia influenciar o presente.

Não é segredo que o principal tema do livro é criptografia. Na parte da estória ambientada no passado são apresentados vários temas modernos da matemática. Não de forma didática, mas pelos olhos de quem estava descobrindo as novidades com a empolgação de um explorador do ártico. Lawrence Pritchard Waterhouse, amigo pessoal de Alan Turing, é uma dessas pessoas com o cérebro tão embriagado pela matemática que é normal ter epifanias geniais qualquer que seja a situação. Quando a guerra começa a esquentar Waterhouse está num navio em Pearl Harbor como músico da bandinha. Tendo sobrevivido aos eventos conhecidos, ele é inesperadamente descoberto como matemático über-cracker extraordinaire, promovido à oficial e mandado pra quebrar códigos nazistas em Bletchley Park e outros lugares.

Enquanto isso, nos tempos modernos, Randy Waterhouse, neto de Lawrence, é um hacker e empreendedor tentando, juntamente com seus amigos e sócios, criar um Data Haven numa ilha do Pacífico. E caçar tesouros.

Nesse ponto eu dou uma parada no post tipo “resenha” e mudo pra post tipo “vou fazer como quiser”.

O livro tem vários personagens legais, mas vou me fixar nos Waterhouse e nas minhas situações preferidas. E em Enoch Root, claro.

Enoch Root é um padre que aparece nas duas épocas, praticamente inalterado. Randy define ele como um Mago. Randy também se define como um Anão e outras pessoas como Hobbits. Essas comparações de pessoas com personagens das histórias de Tolkien e RPGs sempre me arrancavam um sorriso de satisfação — isso é algo que faço com muita freqüência (designers são Elfos, desenvolvedores são Anões).

Avançando um pouco, Randy é trancafiado numa cadeia em algum lugar pelas Filipinas. Enoch Root arruma um jeito de ser preso na cela do lado. Lá rola um diálogo que é o meu preferido no livro: Enoch Root explicando que os alemães perderam a WW2 por serem seguidores de Ares e os Aliados venceram por serem seguidores de Atena. Ele começa questionando pra quê os gregos precisavam de dois deuses da guerra. Eles não são exatamente iguais. Ares é a pancadaria, a carnificina e a destruição — o cara é um psico. Atena é diferente, começando que ela nasceu da cabeça de Zeus. E ela não é deusa só da guerra, ela é deusa da estratégia e, mais importante, da tecnologia. A marcha de destruição alemã não era apenas física, eles atacaram desde as artes até a por eles chamada “ciência judaica”. Eles tocaram Einstein (ele faz uma pontinha no livro) pra fora de lá, só pra citar um. Os aliados, pelo contrário, recebem a leva de cientistas fugidos e ainda proveem o habitat natural deles: um lugar para pensarem livremente (mais uma boa verba de pesquisa). Enoch Root elabora esse ponto melhor que eu (leia o livro), mas poderia resumir assim: “Smart guys have better guns”.

Waterhouse avô é meu personagem preferido, as situações são ótimas. Ele alterna períodos de intenso trabalho intelectual com luxúria desesperada que geralmente o leva pros serviços das moças da rua da luz vermelha. Waterhouse chega a fazer um gráfico da variação de concentração ao longo do tempo: o “horniness index”. Os períodos de tranqüilidade após um “manual override” eram sempre mais curtos que os que seguiam a ida às putas (ele é um marinheiro afinal de contas). Achei esse gráfico muito mais legal que o computador que ele inventou baseado num órgão de igreja.

Talvez não tão legal quanto quando Waterhouse percebe na beira da praia que toda a existência envia sinais criptografados para todos os lados, e se pergunta que informações estão codificadas na freqüência das ondas.

O livro é grande, com seqüências de ação, sagacidades, drogas, putarias, discussões filosóficas, heroísmo, códigos, quebra de códigos, submarinos, jatos, nazistas, nerdices, dinheiro, tesouros, mais códigos, e as missões para corrigir a curva do sino realizadas pelo destacamento 2702 (originalmente chamado destacamento 2701, mas esse número dava muito na vista, sendo ele o produto dos números primos palíndromos 37 e 73 — suspeitíssimo!). Se você quiser ler e completar as enormes lacunas dessa sombra de lembrança de resenha, então corra. Se está difícil conseguir o volume tem esse link de um dos maiores Data Havens do mundo: a mãe Rússia. спасибо!

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P.S.: e um valeu pro Marcio pelo livro.

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Bible pr0n

Escrevo isso pra todos aqueles, incluindo a mim (fala, Amin!), que têm tanto receio de serem vistos lendo uma bíblia quanto de serem pegos pela mãe com uma Playboy da Cláudia Ohana na mão esquerda, fato vergonhoso pela mãe, pela outra mão, e ainda pelo gosto bizarro. (Fosse você um adolescente da família Van Helsing poderia alegar estudo privado de licantropia pubiana, mas isso ainda não explicaria a estaca na outra mão, que todos Van Helsing sabem se tratar de arma contra vampiros, não com lobis… seja lá o que for que está escondido embaixo daqueles pêlos.)

Imagino que o parêntese do último parágrafo cobre todo pr0n desse texto.

A repulsa pela a bíblia por parte das pessoas racionais e outros bichos parecidos provavelmente é gerada por causa do que ela e as pessoas que vendem esse peixe representam do que pelo conteúdo. Não vai faltar quem diga quantas mortes, guerras e manhãs de domingo entediantes aconteceram por causa de religião e tudo que lhe é relacionado. Também sobre a irracionalidade que causa nas pessoas e por aí vai. Por compartilhar vagamente dessas opiniões por muito tempo (e por ser importunado pra participar de grupos de estudo bíblicos de quanto em vez) algum mecanismo automático na minha cabeça colocava uma etiqueta de “anti- ou semi-racional” em qualquer pessoa segurando um livro preto de letras douradas e lateral das folhas vermelhas.

Moeda Romana

Moeda Romana com Otávio Augusto

Então eu esqueço esses problemas e vou ler qualquer outra coisa “de nível”, o que é esperado de uma pessoa racional. Vou de “A Desobediência Civil” de Henry Thoreau. “Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão.” É assim que se fala, Thoreau! (Embora eu mesmo não queira ir pra cadeia, e talvez você não tivesse ouvido falar de algo como Carandiru.) Texto vai, texto vem, chega na parte sobre governo, impostos e ele me vem com essa citação:

Cristo respondeu aos seguidores de Herodes de acordo com a situação deles. “Mostrem-me o dinheiro dos tributos”, disse ele; e um deles tirou do bolso uma moeda. Disse então Jesus Cristo: “Se vocês usam o dinheiro com a imagem de César, dinheiro que ele colocou em circulação e ao qual ele deu valor, ou seja, se vocês são homens do Estado e estão felizes de se aproveitar das vantagens do governo de César, então paguem-no por isso quando ele o exigir. Por­tanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”; Cristo não lhes disse nada sobre como distinguir um do outro; eles não queriam saber isso.
A Desobediência Civil

Muito esperto Jesus, recebeu a bola e devolveu com efeito.

A Roda da Fortuna

A Roda da Fortuna

Depois fui pra George Orwell. Tem um ensaio chamado “Politics and the English Language”, onde ele discute como o pensamento de uma sociedade decadente corrompe a língua e como a língua corrompida aumenta ainda mais a decadência. Essa corrupção aparece na forma de textos vagos, usando uma colagem de frases prontas que esconde o que o autor quer dizer (às vezes dele mesmo) e ainda dão umas duas mãos de tinta de respeitabilidade em cima de baboseiras que se ditas claramente seriam rejeitadas no mesmo instante. Num dado momento Orwell mostra um texto claro, com imagens fortes e que passa a idéia básica do autor muito bem:

I returned, and saw under the sun, that the race is not to the swift, nor the battle to the strong, neither yet bread to the wise, nor yet riches to men of understanding, nor yet favor to men of skill; but time and chance to them all.

Voltei-me, e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha, nem tampouco dos sábios o pão, nem tampouco dos prudentes as riquezas, nem tampouco dos entendidos o favor, mas que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos. (Tradução de alguém na internet.)

E para demostrar seu ponto de vista reescreve o trecho no que ele chama de “inglês moderno”:

Objective consideration of contemporary phenomena compels the conclusion that success or failure in competitive activities exhibits no tendency to be commensurate with innate capacity, but that a considerable element of the unpredictable must invariably be taken into account.

Consideração objetiva de fenômenos contemporâneos compele a conclusão de que sucesso ou fracasso em atividades competitivas não exibe qualquer tendência a ser passível de redução à capacidades inatas, mas que a considerável influência do elemento da imprevisíbilidade deve ser levada em consideração. (Minha tradução.)

Essa comparação ilustra bem a idéia do ensaio, e o primeiro texto achei excelente (em português e inglês), quem o escreveu deve ter vivido o que dizia, e qualquer um lendo já deve ter passado algo assim. Quero dizer, é o tipo de preocupação com a qual todos podem se identificar. Recomendo duplamente o ensaio. E também o restante do texto-exemplo.

Holy Pr0n!

Holy Pr0n!

Outra coisa que acho legal é literatura inglesa, embora não tenha tempo e memória pra ficar esnobando nos círculos sociais por aí :P. Teve uma época que trabalhei numa biblioteca de faculdade e um livro encontrado por acaso (todos eram) e devorado (e os detalhes esquecidos. sabe, memória e tals, dammit!) chamava-se “A Literatura Inglesa” de Anthony Burgess (o cara de Laranja Mecânica (o autor, não o personagem)). O livro foi escrito como um mastigadão (no bom sentido) de literatura inglesa pra ajudar alunos do Burgess em algum lugar pela Malásia. A prova final de inglês incluía o conhecimento de obras literárias um tanto alienígenas pros caras de lá e o livro adicionava um pouco de contexto histórico. Pra um livro escolar achei esse um dos mais agradáveis de ler (não contando os trechos legais em livros de “Comunicação e Expressão”, mas esses acabavam logo e não tinha livraria na minha cidade pra comprar a versão integral) e demoliu uns muros velhos da minha antiga aversão à literatura.

Burgess começa falando das origens da língua, saxões, normandos e tudo mais, até que chega num capítulo sem número entre o 5 e o 6 com o seguinte título: “Interlúdio – A Bíblia inglesa”. E o primeiro parágrafo é o seguinte:

Vamos examinar muito sumariamente um livro cuja influência sobre a escrita, a fala e o pensamento inglês foi, e ainda é, imansa. A Bíblia não é basicamente literatura – é o livro sagrado do cristianismo -, mas recentemente vem se afirmando uma tendência crescente para apreciar a Bíblia por suas qualidades artísticas, para vê-la não só como a “Palavra de Deus”, mas como uma obra de grandes escritores. Sejam quais forem nossas crenças religiosas, se desejarmos ter uma apreciação integral do desenvolvimento da literatura inglesa, não podemos nos arriscar a negligenciar a Bíblia: seu impacto puramente literário nos escritores ingleses é talvez grande demais para ser medido.

A tradução da Bíblia (agora que tenho sua atenção posso usar o ‘B’ maiúsculo sem parecer um carola) para o inglês foi encomendada pelo Rei James I. A tarefa foi realizada (com muito cuidado) por 47 eruditos de 1604 até 1611 (foi muito cuidado mesmo). No final entregaram um texto tão bom que segura audiências até os dias de hoje. Segundo Burguess: “Não há escritopr que não tenha sido influenciado por ela – até mesmo escritores como Bernard Shaw e H. G. Wells, apesar de não serem cristãos, acabaram sucumbindo à sua força.”

Outro dia comprei uma King Jame’s Bible, logo de cara gostei dessa parte (Genesis 1:2):

The earth was formless and void, and darkness was over the surface of the deep, and the Spirit of God was moving over the surface of the waters.

(E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.)

Não sei se é tietagem minha com a língua inglesa ou se a versão em português me lembra ser acordado à força no domingo pra continuar dormindo numa posição desconfortável na igreja, mas gosto mais da versão Jamesiana do que a tradução nos parênteses. As palavras em “formless and void” e “darkness was over the surface of the deep” soam tão bem. E “the Spirit of God was moving over the surface of the waters” gera uma imagem mental do “Espírito de Deus” sendo uma Jamanta (não o caminhão, ou aquele louco de uma novela esquecida – o que nos leva a outra tietagem: “Jamanta” simplesmente não soa tão bem quanto “Manta Ray”).

"Then God said, 'Let there be light'; and there was light."

"Then God said, 'Let there be light'; and there was light."

Saindo da literatura e me interessando por eventos recentes. Todos (que pensam) já se perguntaram quanto do terrorismo fundamentalista islâmico é coisa de fundamentalistas, se o islamismo é mesmo violento em seu núcleo, ou se é inerente de qualquer religião, já que elas causam mortes guerras e constrangimento, como quando você é flagrado por seus amigos racionais lendo a Bíblia.

Esse assunto em particular é bem espinhento. Se você se der ao trabalho de procurar vai ter seu saco ou ovários enchidos até o limite com opiniões que vão de um extremo politicamente correto onde tudo é bom, todos são bons, ninguém pode ser ofendido e que mulheres de burka trancadas em casa são felizes do jeito delas, até o outro extremo (lá pelo lado direito) com pessoas que tudo que precisam é uma desculpa pra expulsar/matar/desintegrar os “alienígenas indesejáveis” do seu país.

Oriana Fallaci

Oriana Fallaci (foto "emprestada" de El País)

Persistindo dá pra encontrar umas pessoas interessantes, como Ayaan Hirsi Ali, aquela moça da Somália que escapou da família pra Europa e chegou a parlamentar nos Países Baixos. Ou a menos famosa (pelo menos pra mim) Oriana Fallaci, que aos 10 anos participou da Resistência Italiana, aos 16 era repórter, foi ao Vietnam como correspondente 12 vezes, e por aí vai. Meu episódio preferido é o da entrevista com o aiatolá Khomeini em 1979:

“Como é possível nadar com um chador [traje feminino que cobre todo o corpo, deixando apenas os olhos de fora]?”. A resposta do líder, Oriana escreveu depois no New York Times, foi que ela não era obrigada a usar um, já que se tratava de uma peça de roupa para mulheres islâmicas respeitáveis. A jornalista, então, rasgou seu chador na frente de Khomeini.
Morre a polêmica jornalista e escritora italiana

Mas o que interessa nesse texto é como ela se define como Ateísta Cristã no livro A Força da Razão. Dizem que o livro em si é tão polêmico que devia vir com um martelo e uma caixa de vidro escrita “Quebre em Caso de Emergência”, mas voltemos à afirmação:

Sou uma Cristã porque gosto do discurso que está nas raízes do Cristianismo. Porque ele me convence. Ele me seduz… Quero dizer, o discurso concebido por Jesus de Nazaré… que… se concentra no Homem. Que adimitindo o livre-arbítrio, clama pela consciência do Homem, nos faz responsáveis por nossas ações. Mestres de nosso destino. Eu vejo um hino à Razão, uma renovação do pensamento claro… escolha… a redescoberta da liberdade. A redenção da liberdade… uma idéia que ninguém jamais teve… A idéia de um Deus que se tornou Homem… Que falando de um Criador… se apresenta como seu Filho e explica que todos os homens são irmãos de seu Filho… capaz de exercer sua própria essência divina… pregando a Bondade que é o fruto da Razão, da Liberdade, espalhando o Amor… Jesus… como um homem… aborda o tema do secularismo… ele impede os covardes que estão para apedrejar a adúltera… ele ataca a escravidão… ele luta… ele morre. Sem morrer pois a Vida não morre. A Vida sempre ressucita, Vida é eterna. E, junto com o discurso sobre a Razão, sobre a Liberdade, este é o ponto que mais me convence… a negação da Morte, a apoteose da Vida… sua alternativa é a Não-Existência. E vamos encarar: tal é o princípio que guia e alimenta nossa civilização.

Essa tradução é do único trecho que pude encontrar na internet (sem recorrer a torrents de PDFs) onde Oriana Fallaci elabora essa idéia de Ateísmo Cristão dela. Veio de um artigo de uma revista conservadora norte-americana. Os conservadores provavelmente vão pegar a finada como Joana D’Arc involuntária deles ou sei lá, mas esse é ainda outro problema, que de fato não é meu.

O meu problema é que já escrevi bastante. Preciso pensar como finalizar isso tudo e botar umas figuras legais pra disfarçar a compridez do texto. Opa! Falei isso em voz alta?!

A conclusão não sagaz é o bom e velho “não julgue o livro pela capa” que o He-Man diria num final de episódio. Pensando mais um pouco dá pra perceber (eu pelo menos) que tomamos muita coisa como garantida, como esperar um comportamento decente por parte dos assim chamados Outros (citação obrigatória do Luck (não Luke): “Não se preocupe com os outros, tem muitos mais de onde esses vieram.”), ou que a civilização (no sentido de educação e respeito, não no sentido de eletrônicos chineses feitos por trabalhadores sem assistência social) brotou de grátis do nada como o mundo que o Grande Deus Jamanta tirou do vácuo. Bom, tem uma meia dúzia de idéias que fazem sua vida não tão ruim quanto a da galera num filme de Mad Max que, dentre outros lugares, veio da Bíblia. Por exemplo: “E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.”, Lucas 6:31; ou “And as ye would that men should do to you, do ye also to them likewise.”, Luke 6:31. Então se me encontrarem lendo uma Bíblia por aí lembre de tratar os outros como gostaria de ser tratado e não me encha o saco. Aliás, sinta-se livre pra tratar os outros direito (estou levando em consideração que você não é masoquista), quer saber, pra ficar mais fácil ainda: deixe-os em paz. Do que estamos agora pra isso já seria uma grande melhora.

Álvares de Azevedo Coloquial

Em “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo os cinco últimos bebedores que estão de pé – Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann – começam a contar as passagens horríveis de suas vidas.

Aos dezoito anos Gennaro era aprendiz de pintor, e vivia na casa de seu mestre. O mestre tinha uma linda filha de quinze anos, chamada Laura, que todas as noites antes de ir dormir dava um beijo na testa do aprendiz. Um bela noite não havia ninguém em casa, exceto por Gennaro e Laura, ele acordou com a mocinha abraçada a ele. O texto que segue é o seguinte:

“O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu, isso tudo ao despertar dos sonhos alvos da madrugada, me enlouqueceu…”

Daí comecei a pensar como a situação seria descrita numa linguagem mais coloquial e cheguei no seguinte:

“O cara numa idade em que só pensa em sacanagem, acorda de madrugada com uma gatinha de 15, só de camisola, agarrada nele, e juntando isso com a terrível ereção matinal… Putz, não dava pra não comer!”

Seja como for, todas as manhãs a jovenzinha ia no quarto de Gennaro, mas acaba em tragédia. Pena.

Matadouro 5

Billy Pilgrim ocasionalmente lembra do futuro. Na verdade ele revive o futuro, e o passado também. Ele levanta da cama do motel onde está curtindo sua Lua de Mel e ao passar pela porta do banheiro sua continuidade temporal o leva para um campo de prisioneiros na Segunda Guerra Mundial, um terrível balde de água fria, na minha opinião. Quando volta do banheiro sua esposa diz “senti sua falta”, mas Billy Pilgrim replica “EU senti sua falta”.

O auge da coisa foi quando os Trafalmadorianos o levaram em sua nave espacial para sevir de atração no zoológico de seu planeta natal, onde ficou exposto junto com a atriz pornô Montana Wildhack (é seu safado, eles fazem sexo). No momento da captura Billy Pilgrim pergunta “por que eu?”, e a resposta “Por que você? Por que nós? Porque sim. Já viu um inseto preso no âmbar? É exatamente assim que vemos esse momento, não poderia ser de outra forma.” Os Trafalmadorianos vivem em quatro dimensões, e enxergam o tempo em extensão, como enxergamos distâncias, e como nós podemos ir e voltar por uma estrada, eles podem fazer o mesmo no tempo. E assim também pode Billy Pilgrim, exceto que ele não consegue escolher quando acontece nem pra quando vai, e ele não pode mudar nada, apenas reviver (ou pré-viver).

Essa é uma pequena parte (que lembro, demorei a escrever isso) do livro Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, que trata da vida de Billy Pilgrim, suas viagens pelo próprio tempo, especialmente sua participação na Segunda Guerra Mundial, que aliás não teve nada de heróica, parece mais que ele foi tropeçando pela Europa até chegar em Dresden e testemunhar sua destruição pelas bombas incendiárias dos aliados. Este bombardeio causou o dobro de mortes que a bomba de Hiroshima, e acabou com uma linda cidade (antes/depois), além de cozinhar vivos quase todos os habitantes.

O tom do livro é fatalista, como se pode perceber pela fala dos Trafalmadorianos, e mais do que uma crítica à guerra (como eu esperava) é uma reflexão sobre a condição humana. Sobre se podemos mesmo ser de outro jeito ou o que deve mudar é a forma de encarar os acontecimentos.

A forma de narrativa é fragmentada, pequenos pedaços de história, na maioria das vezes sem a conexão cronológica que se esperaria, mas que eu achei extremamente agradável. Acredito que li Matadouro 5 numas seis viagens de ônibus.

E como resenhista amador me dou o direito de ir embora sem mais nem menos. Até logo e leia esse livro. 😉

The Diamond Age, breve!

The Diamond Age é um livro de Neal Stephenson sobre nano-tecnologia, educação infantil e choque de culturas, e pode apostar que é uma das melhores coisas de se ler. A maior parte da história se passa em Xangai, mas não na China, já que ela, assim como todos os outros estados nacionais, não existe na época em que se passa a história, em seu lugar temos a corrupta “República Costeira” e o ancestral e confunciano “Reino Celestial”.

Na Era do Diamante, ou você faz parte de uma tribo, ou dificilmente morrerá de velhice. E uma tribo não é aquele bando de Emos andando em shopping centers e vestindo as mesmas roupas, a tribo do Reino Celestial corresponde a população da China Continental, por exemplo. Os laços tribais podem consistir em partilhar da mesma filosofia e visão de mundo, como os neo-Vitorianos, líderes em nanotech, ou ser afinidades genéticas e históricas, como os Nipponeses, número dois em nanotech.

A história começa com um lorde neo-Vitoriano, Alexander Chung-Sik Finkle-McGraw, encomendando a John Percival Hackworth, Artifex de sua Majestade Rainha Victoria II, um livro para educar sua neta, melhor do que seus filhos foram educados, algo com um toque subversivo. Não um livro comum, é claro, todos acessam informação via papéis eletrônicos (que se dobram sozinhos, graças às nano-máquinas), este livro, “A Cartilha Ilustrada da Jovem Dama”*, deveria contar uma história fictícia, porém baseada em todos os acontecimentos da vida da menina, ao mesmo tempo que ensina sobre os mais diversos campos de conhecimento: alfabetização, artes marciais, etiqueta, astronomia, cozinha, máquinas de turing e, claro, nanotecnologia. A cartilha é capaz de conhecer o ambiente e mesmo os processos biológicos de quem estiver ao redor usando nano-sondas e integrar esses dados nas histórias com sua pseudo-inteligência. (Aparentemente na Era do Diamante eles desistiram do termo inteligência artificial.)

Outra idéia empolgante (para programadores, pelo menos) é o Compilador de Matéria (M.C.), capaz de materializar qualquer coisa criada pelos engenheiros nanotecnológicos, de cavalos robôs a computadores, até mesmo cartilhas… O caso é que o senhor Hackworth faz uma cópia ilegal da invenção que foi contratado para desenvolver para sua própria filha. Contudo, todos os compiladores tiram a matéria de uma fonte central, que denunciaria sua cópia imediatamente, e ele provavelmente seria expulso da tribo. Ele então recorre ao Dr. X, um mandarin do Reino Celestial que possui um rústico compilador com fonte própria. Na volta pra casa é atacado por uma gangue, a mando do Dr. X, que tinha interesse próprios na cartilha e no próprio Sr. Hackworth. Não reconhecendo o livro como um objeto de valor a gangue não percebe quando um dos membro guarda a cartilha.

Harv, dá a Cartilha a Nell, sua irmã de quatro anos, que passa a maior parte do tempo conversando com o livro, ouvindo suas histórias e aprendendo. No tempo restante ela e Harv são ignorados pela mãe e espancados pela sucessão de namorados truculentos.

No de correr da trama são levantadas questões sobre a superioridade de uma cultura sobre as outras, o que realmente funciona na educação de crianças, e como conhecimento e instrução podem mudar a vida de uma pessoa, embora em um dado momento a protagonista se veja numa situação onde a filiação a um grupo social teria sido sua melhor chance de segurança.

Para minha profunda felicidade e indescritível (e sua também, pode acreditar) fiquei sabendo que o SciFi Channel vai filmar The Diamond Age como série de 6 horas, com produção de George Clooney e roteiro do próprio Neal Stephenson, o que me deixa curioso, pois embora seus dialógos sejam muito bons, partes extensas do livro sejam descritivas, mas provavelmente várias páginas se tornarão cenas de 10 segundos.

Por que Era do Diamante, você pergunta? Ora, porque as Eras históricas costumam ser definidas pelos materiais que a raça humana é capaz de manipular. No começo do livro alguns personagens estão voando sobre o mar num luxuoso avião com chão de diamante, o mesmo diamante que qualquer pessoa poderia produzir nos compiladores de matéria caseiros que todos possuem.

Seek The Alchemist!

* Minha livre tradução para “The Young Lady Illustrated Primer”.