Cryptonomicon

Logo que terminei de ler Cryptonomicon, do Neal Stephenson, fiquei protelando escrever algo sobre o livro, mas seria injusto não falar uma coisa ou outra sobre ele. Vamos ver o que ainda tenho na cabeça.

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O livro é um tijolo de papel que vale cada árvore. Novecentas e tantas páginas onde o escritor não tem a menor vergonha de meter um gráfico de sino (aquele da probabilidade) ou um pequeno script perl. Mais ainda, Stephenson coloca tudo de uma forma que em vez de achar difícil você se sente mais inteligente (+2 na Int enquanto o livro estiver aberto).

A história se desenvolve em duas épocas: a Segunda Guerra Mundial e o Tempo Presente (anos 90, na verdade). Alguns personagens dos tempos mordernos são descendentes ou versões mais velhas de personagens da época da guerra. Outros personagens são reais (ou representações romanceadas de pessoas reais), como Alan Turing e o General MacArthur, que era muito figura. O livro alterna a narrativa entre as duas épocas, o que me deixou o tempo todo pescando pistas de todas as formas que o passado poderia influenciar o presente.

Não é segredo que o principal tema do livro é criptografia. Na parte da estória ambientada no passado são apresentados vários temas modernos da matemática. Não de forma didática, mas pelos olhos de quem estava descobrindo as novidades com a empolgação de um explorador do ártico. Lawrence Pritchard Waterhouse, amigo pessoal de Alan Turing, é uma dessas pessoas com o cérebro tão embriagado pela matemática que é normal ter epifanias geniais qualquer que seja a situação. Quando a guerra começa a esquentar Waterhouse está num navio em Pearl Harbor como músico da bandinha. Tendo sobrevivido aos eventos conhecidos, ele é inesperadamente descoberto como matemático über-cracker extraordinaire, promovido à oficial e mandado pra quebrar códigos nazistas em Bletchley Park e outros lugares.

Enquanto isso, nos tempos modernos, Randy Waterhouse, neto de Lawrence, é um hacker e empreendedor tentando, juntamente com seus amigos e sócios, criar um Data Haven numa ilha do Pacífico. E caçar tesouros.

Nesse ponto eu dou uma parada no post tipo “resenha” e mudo pra post tipo “vou fazer como quiser”.

O livro tem vários personagens legais, mas vou me fixar nos Waterhouse e nas minhas situações preferidas. E em Enoch Root, claro.

Enoch Root é um padre que aparece nas duas épocas, praticamente inalterado. Randy define ele como um Mago. Randy também se define como um Anão e outras pessoas como Hobbits. Essas comparações de pessoas com personagens das histórias de Tolkien e RPGs sempre me arrancavam um sorriso de satisfação — isso é algo que faço com muita freqüência (designers são Elfos, desenvolvedores são Anões).

Avançando um pouco, Randy é trancafiado numa cadeia em algum lugar pelas Filipinas. Enoch Root arruma um jeito de ser preso na cela do lado. Lá rola um diálogo que é o meu preferido no livro: Enoch Root explicando que os alemães perderam a WW2 por serem seguidores de Ares e os Aliados venceram por serem seguidores de Atena. Ele começa questionando pra quê os gregos precisavam de dois deuses da guerra. Eles não são exatamente iguais. Ares é a pancadaria, a carnificina e a destruição — o cara é um psico. Atena é diferente, começando que ela nasceu da cabeça de Zeus. E ela não é deusa só da guerra, ela é deusa da estratégia e, mais importante, da tecnologia. A marcha de destruição alemã não era apenas física, eles atacaram desde as artes até a por eles chamada “ciência judaica”. Eles tocaram Einstein (ele faz uma pontinha no livro) pra fora de lá, só pra citar um. Os aliados, pelo contrário, recebem a leva de cientistas fugidos e ainda proveem o habitat natural deles: um lugar para pensarem livremente (mais uma boa verba de pesquisa). Enoch Root elabora esse ponto melhor que eu (leia o livro), mas poderia resumir assim: “Smart guys have better guns”.

Waterhouse avô é meu personagem preferido, as situações são ótimas. Ele alterna períodos de intenso trabalho intelectual com luxúria desesperada que geralmente o leva pros serviços das moças da rua da luz vermelha. Waterhouse chega a fazer um gráfico da variação de concentração ao longo do tempo: o “horniness index”. Os períodos de tranqüilidade após um “manual override” eram sempre mais curtos que os que seguiam a ida às putas (ele é um marinheiro afinal de contas). Achei esse gráfico muito mais legal que o computador que ele inventou baseado num órgão de igreja.

Talvez não tão legal quanto quando Waterhouse percebe na beira da praia que toda a existência envia sinais criptografados para todos os lados, e se pergunta que informações estão codificadas na freqüência das ondas.

O livro é grande, com seqüências de ação, sagacidades, drogas, putarias, discussões filosóficas, heroísmo, códigos, quebra de códigos, submarinos, jatos, nazistas, nerdices, dinheiro, tesouros, mais códigos, e as missões para corrigir a curva do sino realizadas pelo destacamento 2702 (originalmente chamado destacamento 2701, mas esse número dava muito na vista, sendo ele o produto dos números primos palíndromos 37 e 73 — suspeitíssimo!). Se você quiser ler e completar as enormes lacunas dessa sombra de lembrança de resenha, então corra. Se está difícil conseguir o volume tem esse link de um dos maiores Data Havens do mundo: a mãe Rússia. спасибо!

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P.S.: e um valeu pro Marcio pelo livro.

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