Deficiências Invisíveis

Imagine se um belo dia você acorda e percebe que lhe falta a perna esquerda. (Perdoem aqueles que não a têm.) Imagine também que ninguém nota – as pessoas esperam que você se locomova com duas pernas, óbvio que não dá, mas elas não vêem e olham pra você como se fosse um lerdo. E nem adianta argumentar, você está preso num conto kafkiano, as pessoas simplesmente te chamam de safado, mas não perneta. Você mesmo começa a acreditar nelas.

Parece uma idéia bem absurda, mas coisas parecidas acontecem o tempo todo, e nem todo mundo consegue ver. Estou falando de deficiências no cérebro. Normalmente são problemas de nascimento, mas que ficam disfarçados por um ambiente sem situações onde eles se tornariam óbvios.

Pegue o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), por exemplo. Trata-se da incapacidade de manter a atenção, tendo a agitação como opcional. Você pode passar o começo da sua vida com isso e sair numa boa (“pára menino”, “presta atenção menino”), mas em algum momento você vai ter de trabalhar sério, e pior, com outras pessoas (“fulano é preguiçoso”, “fulano é muito estúpido”).

Se você tem alguma desordem mental, ninguém, nem mesmo você, consegue enxergar sua deficiência claramente como enxergaria uma deficiência física. Na verdade as maiores chances são que você acredite nas barbaridades que falam a seu respeito. Ainda assim você pode dar um crédito à ciência e procurar ajuda, aí no lugar de muletas você terá comprimidos.

Diferente das muletas, os remedinhos pras defiências da cabeça tem efeitos colaterais do tipo transformar cérebro em patê de ricota (estou exagerando aqui), e sua simpática caixa com tarja preta não te torna o cara mais popular do escritório caso alguém te veja com ela na mão. Na verdade as expressões faciais podem variar de indiferença claramente fingida àquela cara de “o cara é louco perigoso!”. Essa última seria algo como descobrir que o sujeito tem uma arma embutida na muleta.

A pior parte vai ser quando, tomando seu remédio, você se sentir quase normal. Nesse momento olhando seu corpo perfeito, já não lembrando de qualquer problema que tivesse tido com seu cérebro imperfeito, você joga as muletas invisíveis longe, como num daqueles êxtases religiosos clichezados de televisão, e grita pra sua massa encefálica: “levanta-te e anda!”. O que esperar além de um cérebro caído metaforicamente no chão? Nesse momento você percebe que o que tem não é uma doença, mas uma defiência, e que seu remédio é mesmo uma muleta que vai ficar com você pro resto da vida. Mas ninguém vai ver.

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