Padrões Abertos: OpenDocument vs OpenXML e o que a Dinamarca tem com isso?

Para todos os advogados de Software Livre que estejam passando, uma declaração: Padrões Abertos são mais importantes que Software Livre. Paciência, continue lendo e acabarei com seu ultraje Stallmaniano.

Primeiro, S.L. é feito de pessoas: deve haver um interesse de uma certa quantidade de usuários e programadores para que estes últimos queiram dispor de seu tempo para codificar as aplicações necessárias. Isso se traduz com as aplicações mais populares tendo maior quantidade de desenvolvedores (voluntários ou “doados” por empresas interessadas) do que as mais obscuras ou menos desejadas pelo público.

Suponhamos então que uma diversidade de negócios vêm usando uma aplicação proprietária para manipular seus dados (digamos documentos com aquela extensão, como é mesmo? .doc!) até que um belo dia surge uma aplicação com recursos satisfatórios a ponto de uma troca ser considerada. Apenas um problema: “e meus zilhares de documentos cruciais para meu negócio? Vou poder vê-los?” Se você está no negócio de migração para Linux (ou pelo menos para OpenOffice.org) então já ouviu isso milhares de vezes, e teve de explicar o que são formatos e suas diferenças (e o que significa uma compatibilidade de 90 e tantos por cento) o dobro de vezes, e o cliente compreendeu metade, sendo otimista.

É por isto que padrões abertos são mais importantes que, ou melhor seria dizer, tem precedência sobre, software livre. As pessoas só usarão software livre na medida que poderão continuar de onde pararam. Imagino que ninguém jamais migrou para Linux um escritório que usasse Autocad.

Estou tocando nesse assunto por causa da recente disputa entre os formatos para documentos de escritório, OpenDocument Format (ODF) e Microsoft OpenXML. O primeiro é um formato padronizado pela ISO, o segundo é a resposta da Microsoft à pressão de vários governos por clareza no armazenamento dos dados públicos, por exemplo, o estado americano de Massachussets declarou que só compraria aplicativos que usassem padrões abertos, apontando o ODF como preferido. Note bem que eles não disseram que desejavam usar software livre em detrimento de qualquer outro modelo de negócio, é apenas um caso do consumidor especificando como deseja seu produto.

Observando rápidamente você poderia até dizer que a Microsoft fez a lição de casa: garantiu que a documentação de seu novo formato seria aberto e financiou um plugin livre para conversão do ODF. Mas como diz minha mãe “quem não te conheça que te compre”, o plugin de conversão causa perdas de dados, e o formato, será mesmo aberto?

Um olhar ingênuo diria que basta a documentação técnica estar disponível para ser considerado um padrão aberto, mas a vida é mais complicada, certo? Veja esse comparativo das documentações técnicas dos dois formatos:

OpenDocument Format
700 páginas
3MB especificação
Reusa padrões existentes (como SVG e XLink).

MS OpenXML
4,000 páginas
24.4MB especificação
Reinventa a roda.

Além disso a especificação da Microsoft exige compatibilidade com seus formatos fechados anteriores, alguns com licenças restritivas. Existe uma página com as objeções ao OpenXML como padrão aberto: EOOXML objections. Na prática tudo isso significa que o OpenXML pode entrar nas licitações como formato aberto, mas na vida real continuaria sendo tão fechado quanto seus antecessores.

Sabe qual o ponto crucial da coisa toda? Definições. Como podemos julgar que um padrão é aberto, sem definirmos o que é um padrão aberto. Existem algumas definições com pontos em comum, mas vou falar aqui de uma definição dinamarquesa que cobre os pontos mais importantes. São eles:

  1. Ele é bem documentado com a especificação completa disponível publicamente.

  2. Ele pode ser implementado livremente sem limitações economicas, políticas ou legais sobre a implementação ou o uso.

  3. Ele é padronizado e mantido por um fórum aberto (também chamado “organização de padronização”) via um processo aberto.

O item 1 é o mais óbvio para o público, e com o qual a MS quer vender seu peixe. Com o item 2 a coisa complica: a MS se compromete a nunca usar suas patentes envolvendo o OpenXML contra implementações concorrentes? Não? Sim? Nada a declarar? Surpresa!!!

Mesmo que eles deixassem em aberto, criando assim aquele clima de medo, incerteza e dúvida, aliás, mesmo que eles se comprometessem a nunca processar nem mesmo um concorrente que esteja lhes comendo 60% de mercado, ainda resta a coisa mais querida da Microsoft ao longo de sua história: controle. Por isso o item 3 é o mais aterrorizante. Imagine que o OpenXML satisfaz os itens 1 e 2, e a concorrência está dando trabalho à Microsoft, qual a solução? Ora, passar 1 ano desenvolvendo e implementando a próxima versão do pardrão “aberto”, lançar o produto no mercado e deixar a concorrência lutando por 2 anos pra implementar a nova versão, ou ter seu produto taxado de incompatível.

Ponto para Dinamarca pela definição. E a conclusão desse artigo você mesmo tira.😉

Update: traduzi a definição dinamarquesa e coloquei no site do CInLUG.
Outras referências:

2 pensamentos sobre “Padrões Abertos: OpenDocument vs OpenXML e o que a Dinamarca tem com isso?

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