Crysis Warhead

2008 Outubro 24
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por Marcelo Lira

Hoje devia ser um dia muito especial. Comprei Crysis Warhead. De verdade, na loja, de papel passado, diante de Deus! É a primeira vez que tenho um hardware decente pra jogar seriamente e não só ficar olhando nas revistas (é faz muito tempo, nem tinha internet quando eu já não podia jogar os melhores jogos).

Podia ter baixado o jogo como todo mundo faz, mas agora que a vida não está mais tão porcaria pensei ser interessante não mais agir de forma porcaria e pagar pelo jogo. (Esse pensamento foi um tanto marxista.)

Voltando ao raciocínio, isso era pra ser muito especial. Digitar serial é coisa que eu nem lembro pra que serve (só uso Windows pra jogos, o resto do tempo é “apt-get” ou “emerge”). Levou um longo tempo pra instalar a bagaça, fiquei pensando nos reviews que vi no YouTube, na diversão de jogar o primeiro Crysis por 7 horas seguidas no computador do dandrader. Cara, foi esse jogo que me fez comprar esse monstro de máquina cara com placa GeForce foda praticamente trazida do futuro pelo Conan! Depois de tudo pronto, o dedo coçando no mouse, essa porra de jogo me diz que as cinco instalações que eu tinha direito já foram feitas e por motivos de segurança o jogo não ia rodar. Segurança de quem CARALHO?!

O que fode tudo, tudinho mesmo, é que meu ódio poderia matar plantas, fazer vacas de duas cabeças nascerem e o Galvão Bueno pedir desculpas por todos esses anos sendo um idiota. Mas tuda essa energia não tem qualquer direção. Não é culpa da moça que me atendeu tão simpaticamente na Saraiva, não é culpa dos game designers, dos programadores, nem do hardware. Provavelmente é culpa de algum advogado de direitos autorais filho da puta que foi abusado quando criança por rottweilers num filme que só foi apreendido pelo FBI depois que todo mundo da escola dele assistiu. Um desses colegas de escola deve ter dividido quarto com ele na universidade de direito.

Bem pode ter sido outra pessoa. Não importa, ela é inatingível pra mim. Eu não posso ligar esporrando pra ninguém, tudo que posso fazer é baixar um crack no torrent com minha conexão sofrível e torcer pra que dê certo.

Claro que posso devolver na loja, pegar meu dinheiro de volta e minha reclamação débil subir a cadeia de consumo até algum lugar misterioso nos Himalayas. É como levar uma surra de olhos vendados. É tão broxante que não dá nem pra se masturbar como atividade compensatória.

Caras do DRM, vocês podem se achar o máximo mas vocês são todos filhos da puta e… pensando bem, eles não devem estar lendo isso aqui porque estão com as cabeças enfiadas em seus próprios cus. Então essa é pra você programador/game designer/etc aleatório que está lendo isso: NUNCA ponha ou deixe que outros coloquem DRM nos seus jogos. Toda vez que você faz isso um fã morre e seu árduo trabalho vira merda.

Update: consegui jogar o treco burlando o DRM e enfim jogar “as it meant to be played”, como diz o logo da NVidia. Baixe esse DLL[1] e coloque no diretório bin32 sobre um DLL de mesmo nome, lá onde o Crysis foi instalado. Ele vai quebrar o esquema de DRM e deixar você se divertir com seu jogo legalmente comprado com seu dinheiro honesto. Mesmo assim depois vou trocar o dvd lá na saraiva.

[1] http://rs498.rapidshare.com/files/146438698/tdm-cw.zip

Da Terra dos Testes Bobos

2008 Outubro 2
por Marcelo Lira

Lantern Pr0n!

2008 Setembro 21
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por Marcelo Lira

Aqui em Recife tem uma rede de lojas chamada Atacadão dos Presentes. É uma daquelas lojas que vende tudo: material de construção, ferramentas, brinquedos, papelaria, equipamento de proteção individual (onde eu passo boa parte do tempo, deve ser alguma perversão porque eu não preciso de óculos pra solda nem máscara de gás) e a prata da casa: coisas inúteis.
Uma das coisas que sempre me chamou a atenção foi a lanterna movida à energia animal: enquanto você ficar apertando o “gatilho” a luz permanece acesa. Suponho que essas coisas autosuficientes fascinem pessoas fissuradas em futuros do tipo Mad Max.
Depois de meu lado depravado sufocar a vozinha medíocre que dizia “gastar com coisa que você não vai usar?!”, levei duas delas pra uma noite de tórrida lá em casa. Daí produzi as fotos pornográficas que seguem:

Lantern Pr0n 1
ainda vestida

Lantern Pr0n 2
toda aberta

Lantern Pr0n 3
ela tem uma bateria como fonte de energia opcional embutida. safada!

Lantern Pr0n 4
a engrenagem preta transformam o movimento de apertar o “gatilho” em movimento circular transferido pro dínamo gerador de energia (a coisa branca)

Lantern Pr0n 5
agora tudo espalhado e o dínamo todo arreganhado

Lantern Pr0n 6
bolinação

Lantern Pr0n 7
testando sem a bateria de lítio (pra saber se era opcional mesmo — depois das olimpíadas confio ainda menos nos chineses (exceto o Confúcio)).
O multímetro diz que estou gerando 250mV

E fica melhor! Vídeos pr0nográficos:


girando o dínamo com o dedo


medindo a tensão com o multímetro

É bem legal essa lanterninha, perfeita mesmo só se armazenasse energia, mesmo que por pouco tempo. Um capacitor poderia servir.
O exercício físico pra operar a dita me lembrou uma conversa com tia Dany (não essa conversa) sobre que seria muito mais estimulante ir pra uma academia se a energia gasta lá fosse armazenada pra uso posterior. Além de ter noção numérica do que estava fazendo: “hoje gerei 100Wh (ou 360.000 Joules, que na minha cabeça é mais julioverniano; ou ainda, 86kcal) lá na esteira”. Como diz o Salveti, fica a dica nerd/saudável.

Scrum Cards Open-Source Style

2008 Agosto 28
por Marcelo Lira

Conheci o Scrum aqui no INdT, e tendo sido adotado recentemente a maioria do pessoal ainda está aprendendo. Uma das técnicas do Scrum que chama atenção é a do planning poker, usada para estimar o esforço de uma estória (ou feature, mas estória dá uma idéia melhor). Nos explicaram que o esforço necessário para realizar a tarefa é para ser visualizado como tamanho, não como tempo. Mas era comum nos planejamentos sair frases como “quanto tempo vai levar?”, “acho que fazemos isso numa tarde”, e “não, não, nada de pensar em tempo”. Pra ajudar a me reeducar passei a imaginar que as tarefas eram grandes como elefantes ou pequenas como ratos. Daí pra ficar legal mesmo fiz um baralho de planejamento com imagens de bichos de tamanhos diferentes. Ao contrário dos chatos softwares proprietários quase todo projeto opensource ou de software livre tem um mascote simpático. Daí usei esse zoológico pra construir meu baralho.

verso das cartas

A pena é do projeto Apache, que certamente requer um esforço maior e vale mais que 1/2. É isso aí Coxa, estou falando com você. Ele disse “você tá louco?! O Apache 1/2!?”. A idéia é visualizar tamanho, e a pena é o mais leve da lista.
Verdade que nem todas as figuras são de projetos de código aberto. O clipe você deve conhecer e odiar de um softwarezinho proprietário aí. E esse clipe não vale nada, por isso é o zero. O outro personagem é a coruja retardada da interrogação. Essa coruja ficou famosa por causa deste poster motivacional:

Ela é incrível e somos todos grandes fãs aqui no INdT. Não há ninguém melhor pra ilustrar a carta “não faço a menor idéia do esforço disso”.

Agora alguns dados técnicos e a chatice legal. Fiz o baralho com o Inkscape e a fonte usada foi a Purisa (parte do pacote ttf-thai-tlwg no Debian/Ubuntu). A licença pro baralho é a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial.

As licenças de cada uma das imagens podem ser encontradas em seus respectivos sites. Duvido muito que você queira checar, mas vou colocar os links pros projetos (ou entradas na Wikipedia) assim mesmo.

Como a maioria dos posters motivacionais a coruja retardada é domínio público. Assim espero.

Não deu pra descobrir qual a licença do clipe idiota, mas se alguém reclamar deixo só os olhos dele e mando os membros pra sua família em Redmond.

qemu-arm-eabi updated, fakeroot bug fixed, post posted

2008 Agosto 19
por Marcelo Lira

As some of you already know Lauro Venâncio maintains a version of qemu with a set of patches that provides arm-eabi compatibility (which is needed if you want to build/use PyMaemo in Scratchbox). He does so because many of these patches where not yet accepted upstream and the world can not wait.

The version of qemu-arm-eabi in the sourceforge repository included the full source of qemu from its cvs with the patches already applied. Since the qemu source was a bit old (the current version uses svn) I spent some time updating Lauro’s qemu-arm-eabi. Now the sourceforge repository includes only the patches and a script to checkout qemu source from its own svn and apply the patches with quilt. There are also scripts to build and install the qemu-arm-eabi in scratchbox.

But nobody expects that a new bug would crawl in. When running a program through fakeroot and that program tries to call popen libfakeroot will not be found. I find out that the problem was in the fakeroot-tcp script that was using ‘,’ as separator in the environment variable SBOX_PRELOAD. This works with the qemu versions provided by scratchbox, but not with our patched version. I take a look at the scratchbox patches and other places for the source of the problem and found nothing. Since my time to deal with this was limited I just changed ‘,‘ to ‘:‘ in fakeroot-tcp. This worked fine when you do “fakeroot ./progthatusespopen” but Jesus couldn’t do a “dpkg-buildpackage -rfakeroot“. Caio (from Canola fame) solved this by removing the separator and the second item of the SBOX_PRELOAD variable.

The fix described is not the best but works for now. If you have any idea on how to solve this in a proper way your help is appreciated.

Instructions on how to install in the qemu-arm-eabi wiki.

To Victory!

2008 Junho 25
por Marcelo Lira

Se esse fosse um poster motivacional eu escreveria algo como:
“Helping Hands. You do things better with them.”

Só queria dizer. :)

O Lance da Zebra

2008 Maio 26
por Marcelo Lira

Zebra tridimensional representada numa superf�cie

Numa das tardes do treinamento de Scrum meu subconsciente processava umas paradas da conversa sobre metafísica que tive com o dandrader pela manhã. Daí essa frase se formou e foi parar num postit:

“The bidimensional creature can only see a slice of the tridimensional zebra.”

O Alisson catou o papel e levou a frase pra uma discussão na hora do intervalo na beira da piscina. Minha intenção não era essa, mas pelo que os caras discutiram até agora a dita frase vertida para o português brasileiro de Recife ficaria assim:

“Aí gata, vamo lá em casa pra eu te mostrar minha coleção do Carl Sagan.”

Ainda nesse espírito, o Thiago ensinou uma outra frase que, segundo ele, pode bloquear as sinapses do cérebro feminino por alguns segundos, tempo suficiente pra o sujeito trabalhar no sentido de agir. Eis a frase:

“Você já ouviu Harvest of Sorrow do Metallica?”

Ele falou que é infalível. E sobre a zebra, deixo pra elaborar a causa num outro dia que passar a tarde comendo grãos de café.

It’s Evolution, Baby!

2008 Maio 23
por Marcelo Lira

Durante a tradicional apresentação inicial sobre Open Source e Software Livre que o CInLUG faz pros calouros das computações, alguém me perguntou: “mas esses softwares (livres) nunca estão prontos, eles devem ter muitos defeitos, não é?”. A resposta era fácil e estava na ponta da língua antes dele terminar de falar, mesmo assim me permiti pensar algumas coisas por uma fração de segundo tão longa que a sala parecia uma imagem em pausa. “Rapaz, a VIDA é cheia de defeitos!”, eu disse enquanto fazia uma macaquice de alguém tendo algum tipo de epilepsia/tique-nervoso. Imagino que foi uma piada bem contada, porque todos riram muito, e porque eu não ri junto, o que acabaria estragando a seriedade da anedota. E era uma piada muito séria.

Que todo mundo é diferente você já sabia (espero), mas já se perguntou o quão diferente?

Os lingüistas dizem, ou pelo menos o Anthony Burguess diz no excelente livro A Literatura Inglesa, mas ele não é lingüista. Onde estava? Ah, alguém disse, talvez não exatamente isso, mas algo parecido… Retomando – um idioma é criado quando o dialeto, de um grupo de dialetos semelhantes, usado pelo grupo mais poderoso, é eleito como o idioma oficial pela força político-militar desse mesmo grupo. Em outras palavras, o que chamamos de idioma de uma nação é uma colcha de retalhos de dialetos.

Com as pessoas, ou melhor com os genes delas, é a mesma coisa: humanidade é um conceito baseado num número de semelhanças maior que o número de diferenças, é a “normalidade estatística”. (Normalidade é uma questão numérica, por isso ninguém é cego nas profundezas abissais.) No geral somos (nós humanos) muito parecidos por fora, apesar de uma ou outra diferença.

Polidactilia

Essas alterações acontecem por conta de erros de cópia dos genes, por causa de radiação cósmica, e, claro, por culpa dos videogames e desenhos de pokémons.

As mutações físicas sempre chamam atenção, muitas delas tornam o indivíduo inapto pra sobreviver. A natureza é uma mãe psicótica sempre tentando matar seus filhos, ou pelo menos os que dão mais trabalho. Como de costume, é pro seu próprio bem.

Mutação e Seleção

O básico de evolução é: mutações aleatórias geram diversidade, seleção natural diminui a diversidade.

Observe que todos os gigantes de duas cabeças, cíclopes, centauros e fadas estão representados pelas bolinhas com “X” vermelho.

E mesmo o que encontramos por aí está longe de ser perfeito. Dê uma olhada nesse vídeo apresentando um “robô gafanhoto”, dê uma olhada como o gafanhoto orgânico quase cai de costas durante um pulo. Um design porcaria (o robôzinho logo deve estar fazendo melhor), mas que funciona bem o bastante.

Está Tudo na Sua Cabeça

Com o desenvolvimento da nossa venerável linhagem humana com seus corpos cada vez mais pelados e unhas de maricas, mutações mais interessantes começaram a acontecer onde não podiam ser vistas – no cérebro. Mas os efeitos das mutações podiam ser sentidos: você não precisa ter garras de tigre, ou ser grande como um tiranossauro (o que é bem caro de se manter), basta ser esperto. Fácil? Nem a pau! Com grandes cérebros vêm grandes dores de cabeça.

Algumas mutações no cérebro devem ter gerado todo tipo de doido, pior ainda se desapercebidamente ele se torna o líder do grupo. “Vamos todos nos matar pra subir na nave escondida atrás do cometa!” Parabéns! Felizmente a maioria dos doidos acabou se matando antes (Darwin Awards!) e levando sua linhagem condenada pro esquecimento genético.

Ou não?

Havia uma matéria na NewScientist (a assinatura foi uma grande idéia INdT!) de um mês que não lembro (desculpem por essa), que perguntava: se a seleção natural diminui a variedade, não deveríamos todos ser mais parecidos em comportamento e ter o mesmo temperamento? (É, esse seu gênio ruim é hereditário!) Cientistas observaram alguns grupos animais, algum pássaro (que não lembro), haviam indivíduos mais ousados que iam muito longe da área familiar do grupo, e outros que não gostavam tanto de sair de casa. Por quê com o tempo e intempéries e predadores não restou só o grupo mais caseiro?

Por que as coisas mudam. As coisas mudam o tempo todo.

Em épocas de vacas gordas, ficar em casa é uma boa. A geladeira está cheia, nenhum predador a vista, a vida é sexo, relaxar, sexo, comer, alguma coisa que pássaros fazem, sexo… Os mais saídinhos acabam tendo mais chances de se perder, morrer de fome ou virarem comida.

Aí vem o tempo das vacas magras. Um cometa caiu, um vulcão explodiu, qualquer coisa. Aqueles pássaros mutates (pra mim todo indivíduo é um mutante) com firmware de ficar em casa, vão ficar com aqueles sentimento “vai ficar tudo bem, passa logo, vou sentar aqui e esperar”, enquanto o mundo desaba. Os mais ousados e pirados só estavam esperando uma desculpa pra se mandar, eles terão o impulso natural de explorar e eventualmente achar um lugar melhor pra viver. O que não é difícil se a antiga área de morada virou um inferno de predadores famintos, fogo, enxofre e pagodeiros.

E assim a variedade de comportamentos dentro de uma mesma espécies é justificada pela utilidade que varia com o tempo e as mudanças de condição ambiental.

Caçadores e Coletores (que soa melhor que Catadores)

Antes da agricultura e da televisão, os humanos não paravam muito em casa, pelo menos não os homens. O grupo se fixava em algum lugar seguro, as mulheres ficavam com as crianças e os homens saíam pra caçar. Grandes caçadas podiam durar dias. Dizem que no tempo em casa as mulheres tinham tempo fazer observações mais detalhatas da natureza, como o crescimento das plantas, mudanças ambientais, e assim inventariam a agricultura. Quem inventaria a novela televisiva ainda não sei.

A caçada era uma coisa muito séria e tudo dependia dela. Força física era importante, e provavelmente todos os caçadores tinham o mínimo que a tarefa exigia, e quem não se enquadrasse teria o direito democrático de morrer. Mas como sabemos força não é o que torna os humanos (e parentes) especiais, características cerebrais como persistência, coragem, inteligência é que aumentavam a quantidade de caça levada pra casa.

Não seria surpreendente se aparecesse uma mutação que se encaixasse nesse estilo de vida.

Ascenção e Queda dos Caçadores Hiperativos

Descobri uma palavra interessante faz um tempo: Neurodiversidade. É uma forma de encarar algo que de outra maneira seria chamado deficiência mental, o que além de soar mal, não traduz muito bem a realidade. Como vimos no caso dos passarinhos caseiros e ousados, a neurodiversidade deles foi fundamental para sobrevivência da espécie às mudanças. É dito que a neurodiversidade é tão importante para uma espécie quanto a biodiversidade é importante para a vida em geral.

Existem várias condições cerebrais que poderíamos usar como exemplo, mas por um motivo arbitrário vou pegar aquela conhecida como Transtorno de Défcit de Atenção com Hiperatividade (e mais outros tantos nomes). O conhecimento sobre essa condição é relativamente recente, no começo sendo atribuída a problemas de caráter e criação, mas agora sabe-se que tem causas genéticas.

Como bem sabemos, não fosse uma característica útil não teria ajudado seu portador, e se fosse danosa o teria levado pra um caminho sem volta. Pensando nisso um cara chamado Thom Hartmann propôs a teoria dos Caçadores vs. Fazendeiros. Que é mais um esboço de uma teoria, uma hipótese ainda não verificada, mas com um bom fundamento e que já começa a ser estudada.

Mas primeiro algumas características dos portadores de TDAH (bem por cima, na wikipédia tem mais informações; eu também não faço diagnósticos, vá procurar uma médica se desconfia de algo; e não é verdade que todos são sexy, não tire por mim):

  • impaciência com tarefas chatas
  • impulsividade
  • inquietação física
  • sensação de estar sempre “na correria”
  • distração

E tem uma coisa extra, o tal do hiperfoco, que apesar do nome, não chega a ser um super-poder de quadrinhos, mas ainda assim é uma viagem. Apesar dos problemas em manter a atenção em tarefas regulares, quando está fazendo algo que considere estimulante o sujeito com TDAH pode passar muito tempo sem pensar em outra coisa, dirigir todos os esforços pra realizar a tarefa. Uma pena que nem sempre o que ele quer fazer é o que ele deve fazer, fato que no começo, juntanto as outras caraceterísticas, me fez pensar que TDAH era um bom disfarce pra preguiçosos e safados.

Programar pode ser estimulante pra uns (passei uns dias programando um negócio sem nem conseguir articular verbalmente o que estava fazendo, eu não queria parar; tinha um prazer estranho na atividade, dizem que os esportistas sentem isso) (percebi que faço parênteses grandes…), mas correr pelo mato atrás de um bicho selvagem deve ser o tipo de coisa que prende a atenção de alguém. Não essa porcaria de maricas ingleses caçando uma pobre raposa, mas correr como um louco com seu coração pra explodir e com sua vida dependendo disso. Ainda não inventaram videogame melhor isso.

As características de inquietação, distração e impaciência, como nos pássaros do exemplo anterior, compeliriam o caçador à perambular, aumentando as chances de localizar caça. Enquanto em movimento não sua atenção iria de um lado para outro, nunca se fixando por tempo demais numa bobeira qualquer, e finalmente quando aparecesse o jantar sobre quatro patas, o hiperfoco tomava conta, e nada mais existia exceto um futuro animal morto que insistia em correr. E o simples prazer de fazer isso.

Esses caçadores eficientes (e não super-caçadores, note bem) tinham mais chance de trazer comida, logo, viviam bem e saudáveis, logo, pegavam mais mulheres. Era uma época interessante, e os genes que carregavam essa característica deviam ser populares. Então no Neolítico surge a agricultura, mas essa não seria a “mudança de paradigma” que “colocaria todos os caçadores na rua”. O Downsizing só surgiria milhares de anos depois.

Aldeia do Neol�tico

A transição levou uma quantidade de anos com quatro dígitos, e a caça ainda estava em alta, tanto por motivos práticos quanto de status social, o que possivelmente dava aos nossos caçadores hiperativos licença pra terem suas esquisitices. E essa é minha deixa pra ir pro lado ruim da coisa.

Pelo que sabemos de evolução, a condição que chamamos hoje de TDAH não apareceu prontinha numa caixa com um rótulo e um logotipo da Umbrella Corporation (também conhecida no mundo real como Monsanto). A coisa simplesmente aconteceu, a natureza não decidiu que teria um tipo de humano bom em caçadas, foi só um cérebro não muito bem copiado (como um download estragado e sem verificação de md5) que calhou de produzir umas características boas. Contudo, outras coisas não foram tão bem.

Cérebros Normal e TDAH

A imagem acima mostra a atividade cerebral de uma pessoa estatísticamente normal, e outra com caso (muito, note bem, muito!) severo de TDAH. Os maiores défcits ocorrem no córtex pré-frontal superior (ex: orientação à objetivos, controle de comportamento social) e córtex pré-motor (ex: um tipo de função motoras que você vai saber indo na wikipedia).

Em outras palavras, a coleção de características do caçador hiperativo é resultado do fato de o bit que liga a chave de energia de dois brinquedos do parquinho estar levemente em 0 (digo “levemente” porque deve ser um qubit, o cérebro deve ser um computador quântico :P ). Assim, a condição de TDAH vem inteiramente grátis com o que os médicos chamam de comorbidades, que são distúrbios secundários associados, e inteiramente opcionais – pode-se ter nenhuma, uma ou várias, e podem ser versões mais brandas do que nas pessoas que tem esses transtornos como desordem primária em seus cerebrozinhos. (Na verdade todos devem ter algo desses transtornos em níveis mais baixos, afinal, somos todos uma grande família.) Algumas comorbidades: Transtorno Desafiador Opositor (fãs do Rage Against The Machine), Abuso de Substâncias, Depressão, Humor Bipolar, Ansiedade, Tiques.

Voltando à evolução, da espécie e do problema, segundo a hipótese que estamos debulhando, os hiperativos contribuíram imensamente nos primórdios da espécie humana, continuaram úteis no início da agricultura, até suas vantagens se tornarem pouco relevantes para a espécie como um todo. E à medida que a sociedade se organizava, esses desordeiros se viam mais e mais deslocados; os comportamentos disfuncionais mascarados pelo estilo de vida primitivo começaram a vir à tona. E a coisa só piorou com o aumento da organização social e das expectativas de responsabilidade, confiabilidade, e outros *-dades.

E agora?

E agora perdi o fio da meada. Estava ruminando essas idéia faz um bom tempo, mas não conseguia organizar tudo. Daí uma hiperfocadazinha e um pequeno distúrbio de sono e pronto, feito o serviço. (Mas nem fudendo que vou fazer uma revisão nisso tudo agora.)

Desde que soube da minha condição (por causa dos problemas de vida decorrentes), provavelmente passei por alguma lista de fases clássicas (negação, raiva, etecetera), mas quando descobri que existia uma explicação dos motivos de se nascer desse ou de outro jeito a coisa melhorou bastante. Quero dizer, além de uma boa história é uma explicação muuuito melhor do que “é porque Deus me odeia”.

De fato me sinto até parte de algo útil é bom saber que além de crianças com o dobro de membros e vacas 2 cabeças de Chernobyl, essas mutações podem trazer novidades interessantes. Outro dia assisti no SeuTubo um documentário do canal discovery sobre geneticistas que querem isolar mutações benéficas raras e possívelmente colocá-las nas próximas gerações. Os mutantes em questão eram: um cara que pode subir a temperatura corporal com o pensamento e assim resistir a temperaturas baixíssimas por muito tempo; uma moça com sinestesia, que é a fusão de percepções, e que fazia ela ver cores e sentir gostos associados aos sons (considero isso muito útil pra determinar categoricamente que existe péssimo gosto musical; imagine a coitada vomitando num “show” do créu); um cara que podia fazer cálculos enormes, sem ser autista; e um pintor cego (ele nasceu sem olhos) capaz de fazer perspectivas. O nome do vídeo é The Real Superhumans, e acabei de ver que a versão completa foi tirada do SeuTubo por questões de direitos autorais. Sugiro que procure em algum outro lugar.

Genetic Fashion Week

Por um lado é legal que possamos multiplicar “genes bons” pras próximas gerações, por outro corremos os risco de decidir o que é bom e o que é ruim baseado na moda da semana. Se pudéssemos escolher amanhã como seriam nossos filhos, a chapinha seria extinta numa geração porque todo mundo teria cabelos lisos, possivelmente olhos azuis e não menos que 1,80m de altura. E, é claro, um pirocão desse tamanho! Um Q.I. enorme também seria bom pra aprender a julgar o que é sensato, mas opa, inteligência não é o mesmo que sabedoria (como sabe qualquer jogador de D&D), e isso não é genético.

Outra coisa que as modinhas podem fazer é extinguir “genes obsoletos”. Mas como saber que algo não vai ser útil depois. Se o estabilishment dos pássaros que não saem de casa extinguisse o gene dos porraloucas aventureiros e mais tarde isso se tornasse necessário pra sobrevivência da espécie? Como que ficava? Não ficava, oras.

Então quando perder a paciência com seu amiguinho TDAH (ou autista, ou bipolar, ou com síndrome de Tourette, ou Emo) respire e repita o mantra: Neurodiversidade é tão boa para espécie quanto a biodiversidade é para vida.

Agora, o irônico mesmo dessa hipótese do cérebro de caçador é o fato de eu ser vegetariano…

A Filha da AK-47

2008 Maio 22
por Marcelo Lira

Chega um momento que mesmo uma AK-47 tem de ir pro Cemitério dos Dragões. Mesmo canibalizando peças (valeu Etrunko!) minha fiel arma estava capengando, meio surda e mais pra lá do que pra cá.

Mas eis que descubro que existe um upgrade! Nokia 1208! Minha primeira dúvida: teria sido um upgrade afrescalhante? Não senhor, tá tudo lá: teclado de película, mostra hora e data quando em repouso, e a imprescindível lanterna! Essa ainda mais potente e focada; na verdade se focar mais um pouco vira um raio laser.

A filha da AK47Menor, mais leve e vestida de Batman!

O dandrader protestou logo que a tela era colorida, e tal e coisa, mas não se deixe enganar, ainda é um aparelho espartano. Pelo menos a primeira queda foi um sucesso.

O Peixe Cadáver

2008 Maio 22
por Marcelo Lira

Fim de semana passado estava feliz vendo minha filhota quando de repente ela grita espantada: “O peixe morreu! A culpa é minha, esqueci de dar comida pra ele!”

O falecido era uma beta azul, que agora deve estar num ringue de vidro lá no céu. Me dei conta que a dona havia se evadido do local. Eu chamo e ela vem com a mão tampando a visão do lado do defunto. “Eu não quero ver o peixe…”, a coragem falta e ela corre de volta pro esconderijo. “Tira ele daí!”, e eu “Vem, tou aqui, não precisa ter medo.”, “Tira!”. “Tá, vou levar o cadáver pra longe.”

Foi então que ela perguntou com um tom de voz diferente, de uma curiosidade enorme: “Cadáver? O que é um cadáver?”. “É um corpo morto. Esse peixe morto é o cadáver do peixe vivo.”, “Ahhh!” (1 segundo se passa.) “Agora tira ele.”

Contei essa historinha no treinamento de Scrum e a Patrícia fez esse desenho muito legal:

Meive e O Peixe Cadáver
Meive e O Peixe Cadáver

Essa é uma das 1 bilhão e 1 coisas que se aprende sobre crianças: elas são umas esponjas, se tiver algo novo elas esquecem qualquer outra coisa pra consumir a novidade. Então, se estiver perto dessas formas de vida não seja mão de vaca com informação, nem se comunique no estilo “mim adulto você cuti cuti”. Faça como Einstein disse: “Mantenha simples; tão simples quanto possível, mas não simplório.

E sobre informação, não esqueça que esse prato é melhor servido acompanhado de alguma carga emocional.