Viva Las Vegas!

Quando o sujeito fica velho pensar no passado consome boa parte do tempo que ainda resta. Nesse meu último aniversário comecei a lembrar da época que era milionário, explorava minha e apostava tudo no vermelho 36. Eu devia ter uns 11 anos.

Las Vegas

Quando era pirralho alguém da minha rua (e “minha rua” aqui significa todas as ruas ao redor até as bordas do cemitério, que às vezes era incluído no território) teve a genialíssima idéia de inventar o dinheiro! Da mesma forma que alguém decidiu que um metal amarelo brilhante aparentemente inútil (eles não tinham processadores naquela época) valia mais que muitas vidas humanas, nós crianças decidimos que carteiras vazias de cigarro valiam algo. Lembro mais ou menos da escala: Hollywood valia 5 (tinha um cigarro bem ruinzinho que valia 1), Carlton valia 10, Camel e Marlboro eram 50, e um outro lá que todos chamavam de “capa preta” valia 100 (uma nota preta!). Quanto mais bling mais valor.

A senhora minha mãe é fumante antiga, acho até que tragava líquido aminiótico pelo cordão umbilical (por falar nisso, ela jura que não fumou na gravidez, mas não consigo acreditar nela porque isso explicaria muita coisa), e eu como mau filho que era estimulava seu vício pra pegar as carteiras vazias. O problema é que ela só fumava Hollywood o que me garantia uma renda muito baixa. Os moleques Bicho Solto eram mais empreendedores, andavam pelos bares e pelas ruas mais agitadas e faziam verdadeiras fortunas. Eu tinha de me contentar em andar olhando as sarjetas e ir pra casa às 9. Eu era classe média. Sim, a parte sobre ser milionário foi uma mentira pra prender sua atenção.

Mesmo todo esse dinheiro de carteiras de cigarro não podia comprar o mais reles chiclete, além de nossas necessitades básicas serem plenamente atendidas pelos pais. Então, o que nos restava fazer com o dinheiro? Ver quem era o mais rico é uma das primeiras coisas pra fazer num grupo de pessoas com dinheiro em excesso. Não tínhamos um top 100 da Forbes, mas Moacir era sem sombra de dúvida nicotinicamente podre de rico, tinha até carteira de cigarro importado. Todos se admiravam. Ele era o cara mais de rua que podia existir, e também era muito doido, do tipo Forrest Gump (me lembro agora da história de como ele ficou comovido quando meu primo o levou no puteiro — mas isso aqui não é mil e uma noites, então vamos voltar à história). E claro que foi Moacir, bilionário entrepreneur, que nos levou pro próximo nível das pessoas com dinheiro e sem ter com que gastar: o jogo!

Roleta

Moacir passou a andar com uma caixa, que desdobrada bem embaixo da luz de um dos poucos postes da grande ladeira no fim da rua, se tornava um cassino completo. Não exatamente completo, não tínhamos cartas, mas os dados e a roleta estavam lá pra quem quisesse apostar. “Derby?! Pode ir tirando esses couros-de-rato daqui que a aposta é alta: Carlton pra cima!”, “Porra, Moacir, aceita aí meus Hollywoods que ainda tá valendo.”, “Tá, tá, tá, então aposta logo essa miséria!” Cara, perdi tantos Hollywoods, mas foi melhor assim, em troca aprendi uma importante lição vendo Moacir enriquecer e todos os outros ficando pobres: no fim a casa leva.

Só tem um nível que nós ricaços das carteiras de cigarro não alcançamos: as putas. Nunca apareceu uma menina pra dançar no meio-fio do lado do cassino me permitindo colocar minhas carteiras vazias de Hollywood (provavelmente eu economizaria botando umas de Derby) na sua enorme calcinha de algodão.